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sábado, 23 de abril de 2016

Artroscopia e Cirurgia Artroscópica



A experiência no tratamento dos atletas, veio beneficiar o doente comum

Fala-se de Artroscopia ou de cirurgia Artroscópica e a primeira relação que se estabelece é com os atletas, em particular com os de futebol. No entanto, a verdade é que esta técnica cirúrgica está ao alcance de todos e a sua eficácia, simplicidade e rápida recuperação pode fazer desaparecer muitos tormentos.
               Quotidianamente o termo Artroscopia, ou melhor, cirurgia Artroscópica remete-nos para os atletas, o joelho e as lesões do menisco. Vulgarmente, são estas as três associações que fazemos de imediato. Porquê? Porque esta cirurgia minimamente invasiva foi, inicialmente divulgada como a cirurgia do joelho, aplicada aos atletas e para resolver as lesões do menisco. Pórem as vantagens desta técnica são mais amplas e não se reduzem a esta descrição.
               De acordo com a minha experiência e como Presidente de Associação Portuguesa de Traumatologia do Desporto a relação da Artroscopia com os atletas foi estabelecida um pouco por todo o mundo. Se pensarmos um pouco, trata-se de um individuo cuja profissão não lhe permite estar muito tempo inactivo, sem desenvolver a modalidade desportiva que escolheu. Neste cenário, tornava-se muito complicado continuar a recorrer as técnicas cirúrgicas convencionais (de cirurgia aberta) porque, pela sua agressão e morbilidade, não permitiam uma recuperação rápida. Por outro lado, a patologia do menisco é, efectivamente, a mais frequente nos atletas.
               Deste modo, a necessidade do atleta em querer restabelecer-se rapidamente, obrigou os Cirurgiões a recorrerem à cirurgia Artroscópica, que lhes permitia uma agressão mínima. As primeiras utilizações desta cirurgia para lesões meniscais criaram a ligação, ainda hoje de certo modo mantida, entre os atletas e esta técnica.
              

Por outro lado a experiência adquirida pelo tratamento nos atletas, veio beneficiar o doente comum. Doentes que, actualmente, apresentam patologias intra -  articulares (quer de carácter agudo, quer “arrastadas“), são também candidatos à utilização da cirurgia Artroscópica.


As vantagens da cirurgia Artroscópica

             Este ano comemora-se o 35º Aniversário da introdução da Artroscopia em Portugal. Eu sou pioneiro nesta técnica cirúrgica que começou por ser um simples meio de diagnóstico é hoje aplicado em procedimentos cirúrgicos que seriam, anteriormente, impensáveis, como por exemplo a cirurgia ligamentar.
Assim, quando se fala em Artroscopia simples referimo-nos ao acto de efectuar um diagnostico intra – articular preciso e correcto. Por sua vez a cirurgia Artroscópica, permite solucionar de imediato algumas patologias que outrora só se faziam com cirurgia aberta, isto porque, ao mesmo tempo que se observa uma articulação, pode-se concomitantemente  solucionar muitos problemas lesionais,  referentes à articulação  em causa.
               As primeiras intervenções cirúrgicas Artroscópica limitavam-se à biopsia da Sinovial, ressecação de plicas sinoviais, corpos livres, pequenas lesões meniscais e, posteriormente, ao tratamento das lesões da cartilagem. Apenas por volta dos Anos 80 é que se desenvolveu a actividade cirúrgica para tratamento da lesão dos ligamentos cruzados anterior e posterior.
               Para mim fundador e 1º Presidente da Associação Portuguesa de Artroscopia, em 1994, a Artroscopia veio revolucionar, de forma positiva, o mundo da saúde


Quando antigamente se tratava uma lesão meniscal, para alem do tempo cirúrgico ser mais prolongado, o doente ficava mais tempo internado e imobilizado, tendo uma fase de recuperação bastante longa, o que significava uma paragem na actividade profissional de dois a três meses. Actualmente, com a Artroscopia, a paragem para um profissional liberal anda na ordem de 1 dia quando se trata de uma lesão meniscal . Um desportista, com a mesma patologia, pode começar a trabalhar, no campo ou no ginásio aos 15 dias.
               A cirurgia Artroscópica é feita com a introdução de aparelhos ópticos em orifícios com cerca de 4 milímetros. Após a cirurgia, a marcha é permitida sem canadianas e não requer qualquer imobilização, o que dá a possibilidade ao doente de ter alta no próprio dia, sendo a recuperação funcional mais rápida.
               O reflexo em termos de vantagem económico para o País também é evidente. “A Suécia, alguns anos atrás, fez um estudo económico e verificou que a poupança, nesta área da saúde, era de milhões de dólares com a aplicação desta técnica nas lesões meniscais” .  Em Portugal, julgo não existir este estudo, mas sei que existem muitos doentes em lista de espera para efectuar esta técnica, podendo ser efectuada em regime de ambulatório.
               Em termos de resultados, é algo que depende muito da patologia em si e da experiência do Cirurgião. Quando se domina bem a Artroscopia, conseguem-se muito bons resultados, ao ponto dos doentes se questionarem se foram operados. Na Artroscopia do joelho, por exemplo, o tempo médio cirúrgico ronda os 15 a 20 minutos. No caso de outras articulações, o tempo é um pouco superior.


A Evolução e Aplicação da Técnica

Sendo eu o pioneiro em Portugal nesta área com cerca de 10.000 Artroscopias feitas, outros me seguiram, aprendendo comigo ou frequentando cursos noutros Países.
               A potencialidade desta técnica é substancial e não se reduz ao joelho e as lesões meniscais. O ombro, o tornozelo, o punho, cotovelo e as ancas são outras áreas de intervenção, podendo ser possível tratar de várias patologias.
               Deste modo é correcto dizermos que, hoje se tratam patologias, quer estas sejam decorrentes da actividade desportiva ou não. Na artrose, a Artroscopia, pode, em certas circunstancias, adiar uma cirurgia mais agressiva, nomeadamente as Artroplastias.
               Por ultimo, e sobre o futuro da cirurgia Artroscópica, considero que, de certo modo, a grande evolução vai recair no aspecto tecnológico, mas devemos fazer mais formação para que a técnica seja bem executada para benefício dos doentes.





Aplicações da cirurgia Artroscópica

·        Joelho
- Lesões do menisco
- Lesões da cartilagem
- Reconstituição do cruzamento anterior e posterior
- Instabilidade da rótula
- Algumas fracturas articulares
- Biopsia Sinovial
- Corpos livres


·        Ombro
- Instabilidade anterior
- Lesões da coifa
- Conflito subacromial
- Corpos livres
- Lesões do labrum


·        Tornozelo
-Corpos livres
- Sinovite
- Lesões da cartilagem
- Fracturas osteocondrais
- Impingment Anterior ou lateral


·        Punho
-Instabilidades
-Lesões do ligamento triangular


·        Cotovelo
- Corpos livres
- Lesões da cartilagem
- Sinovite


·        Ancas
- Lesões da Cartilagem
- Corpos livres

- Sinovite 




José Mário Beça

terça-feira, 22 de março de 2016

Lesões Meniscais

As Lesões meniscais são muito frequentes. Podem acontecer em ambos os sexos e em qualquer idade. Morfologicamente, o Menisco Interno é diferente do Externo sendo o mecanismo de lesão diferente.
A classificação das lesões meniscais é variada .
Os  sintomas  referidos pelos doentes são: dor, bloqueio ,instabilidade, derrame, dificuldade em flectir, ressalto, etc.
A  clínica é, na maior  parte  dos  casos, suficiente  para fazer  o  diagnóstico,  mas por vezes  é necessário recorrer  a exames complementares   como: Rx F e P e Ressonância  Nuclear  Magnética (que também nos pode mostrar lesões  associadas).  O tratamento, salvo em pequenas lesões  periféricas,é sempre cirúrgico. Caso não sejam  tratadas, as lesões  evoluem  e o futuro dos meniscos  e do joelho é mau.

Os movimentos de rotação com o joelho em flexão, são frequentes no desporto,exercendo esforços frequentes sobre os meniscos. Outros mecanismos existem, que nem os próprios atletas sabem descrever.
Casos há que impossibilitam a continuação da prática desportiva devido à dor ,ao bloqueio,e muitas vezes ao facto de haver lesões associadas,como a rotura do Ligamento Cruzado Anterior. No entanto, o atleta deve ser visto e  tratado o mais rapidamente possível.
Há em cada joelho  dois meniscos - um Interno e outro Externo. Têm uma face superior e outra inferior,um bordo livre e outro periférico. É uma fibrocartilagem que está fixa ao prato tibial pelo seu bordo externo, tendo várias funções: Congruência, Lubrificação do joelho, Suporte de pressões e Estabilidade. Durante muito anos pensou-se que o menisco não tinha funções e assim perante a clínica de rotura fazia-se a meniscectomia aberta e sempre total. Com o advento da Artroscopia, o diagnóstico do tipo de lesão é mais preciso e a meniscectomia deve ser a mais económica possível, isto é, deve retirar-se só a zona lesada. Em certas circunstâncias quase sempre porque o doente vem tardiamente, o menisco está de tal modo destruído e então só a meniscectomia total é possível,mas logicamente por artroscopia ou seja por cirurgia fechada. Por vezes, podemos conservar o menisco porque a lesão é passível de sutura e o futuro da articulação será muito melhor.

Perante uma entorse do joelho o exame clínico é fundamental. Os exames complementares são necessários mas devemos sempre fazer uma radiografia e só depois recorrer  a outros exames como a Ressonância Nuclear Magnética. Esta, no entanto, tem uma margem de erro de cerca de 10% e é muito dispendiosa.
O tratamento pode ser : não cirúrgico (que é raro), meniscectomia parcial, meniscectomia total e sutura,e em casos especiais podemos e fazemos transplante meniscal.
Cada vez mais trata-se de uma cirurgia de ambulatório à excepção do transplante.


O nosso protocolo de reabilitação inclui:

Marcha imediata sem canadianas;
Início do treino desportivo normalmente aos 15 dias;
Os doentes devem sempre fazer de imediato recuperação funcional;


O recomeço do desporto varia se se trata do Menisco Interno ou do Menisco Externo devendo este ser mais demorado.


José Mário Beça